Iporá,


"Um bom ouvinte não só é popular em qualquer lugar, mas também fica sabendo das coisas depois de algum tempo"






:: OPINIÃO/ARTIGOS



-> 17.04.2009
Fogoió nas sertanias do oeste goiano


CAPITULO II

* Nilo Alves

Fogoió teve que casar às pressas porque buliu com uma moça em Amorinópolis. Nas rodas de desocupados, todos diziam que ele desvirginou uma menina neta do Lino Vargas, velho bravo que nem canguçu acuado de cachorro vira lata. O cabra era um sujeito ordinário. Dava nó no vento. Do inferno das pedras dos cafundós, ele aprontava todas.

O inferneiro do Fogoió esteve também em Baliza numa viagem que fez junto com cantor Pedrinho Montes Belos. Enquanto Pedrinho tocava viola, ele passava o chapéu. Naquela região tem até um tal de Neguinho das Latas. Ele amarra todos os tipos de latinhas descartáveis em quase todos os membros do corpo e sai a perambular pela cidade com as latarias chocoalhando.

 Não tardou muito, Fogoió fez amizade com o rapaz das latas, pois queria ter um amigo esperto e conhecido na região para, assim, poder ampliar o seu círculo de amizades. Fogoió queria chamar a atenção dos moradores da corrutela, escrevendo o nome do prefeito no lombo de um burro. O povo ria quando o burrinho passava.

Fogoió calangueava para lá e pra cá, assuntando os movimentos e comentários dos transeuntes. O prefeitinho virou uma arara raivosa ao ver o seu nome escrito na cacunda de um animal, um burro. "Brucutu" era o seu apelido. Brucutu andou dizendo na região que o malfeitor  daquela coisa  tinha que ser castrado no momento em que fosse preso, e os testículos jogados  para os cachorros. Ele queria mais, iria abrir um inquérito para saber quem era o autor das peripécias acontecidas na região em detrimento da sua imagem. Ah, sim, quem jogou pimenta no forró da Nedina? Nedina era um cabo eleitoral fortíssimo na região. Também jogaram bosta na festa de aniversário da primeira dama, enlameando dezenas de pessoas. Foi um bosterol de louco naquele dia, e, por sorte, o Jornalista, que Deus o tenha, Noildo Miguel, chegou naquela festa praticamente na hora do acontecido. Como ele gostava de uma molecagem, ficou sorrindo e zombando da cara dos enlameados do bosterol de Fogoió.

Enquando isso acontecia, o chibéu do Fogoió vivia batendo pernas rua acima, rua abaixo. Fogoió botou um apelido no Neguinho das Latas chamando-o de "feio". Neguinho das Latas virava uma fera ferida se alguém lhe chamase de "feio". É que o povo queria ver o "Neguim" rodopiar no meio da rua, fazendo um som barulhento através de suas latas amarradas em todo o eu corpo.

 Fogoíó vivia com um pé atrás, com medo do neguinho das Latas. Contaram ao lateiro que o apelido dele foi botado pelo seu amigo Fogoió. Foi uma danura, pois Neguinho das Latas era nada mais nada menos que um arquivo ambulante. Ele sabia de tudo que acontecia na corrutela. Fogoió deu bandeira na certa.

Neguinho das Latas deu na teia de ir filar bóia na casa do prefeito João da Cerâmica. Foi dito e feito. Antes que Fogoió desse o pira, Neguinho descascou o abacaxi para o prefeito contando toda  a história.Neguinho falava de boca cheia que o bosterol no aniversário da primeira dama, a pimenta no forró e o burro pichado era tudo coisa  de Fogoió. Nisso o Pedrinho Montes belos já tinha botado a sua viola no saco e  estava bem longe atentando outras almas em São Luis dos montes Belos. O prefeito decretou, de imediato, morte ao Fogoió. Desapetrechado, sai o dono da cidade a galopar desesperadamente pelo baixadão da corrutela a procura do malfeitor. Avisaram Fogoió que o homem estava atrás dele. Ele responde dizendo que " dinheiro não espanta bala".

Foi em Arenópolis que o  cara de maxixe do Fogoió aportou âncora. Isso foi nos meados de 1940. O prefeito do lugar, resolveu dar um jumento a Fogoió para ele poder começar no negócio de gambiragem na região. Até então, Fogoió era um baixinho bonzinho e simples. O jumentinho do bandoleiro frutricava tudo o que era canto da currutela. Comia papelão na porta da igreja, marcava a hora do sertão com pontualidade todos os dias do meu Deus.

Tencionava Fogoió inventar uma armação. Pensou logo em cobrar honorários do prefeito pelos serviços prestados pelo seu jumento no tocante às horas anunciadas por ele no dia-a-dia da cidadezinha. Fogoió sabia muito bem que ninguém tinha relógio na região. Ah, sim, somente o padreco da província possuia um seiko, mas o bicho tava parado, com o balanço quebrado. O padre tocava o sino de acordo com os horários relinchados pelo jumento. Foi aí que o cara de mamão macho, um frutriqueiro profissional que não deixava a laia sossegada, resolveu dar o seu primeiro golpe de mestre. Desceu rua abaixo, subiu rua acima e disparou rumo à casa do prefeito.

Com as eleições se aproximando, a casa estava cheia de cabos eleitorais e futuros eleitores. O cara de mamão-macho achou por bem propor ao prefeito "aluguer" de seu burrinho amado e amado do povo para as campanhas eleitorais. Seria uma empreita de venda da imagem do bichinho para angariar votos, pois o moço garantia ao candidato que onde o burro passasse em campanha ali estaria uma montoeira de gente.

Um bate-pau da prefeitura, tipo daqueles "cabelo-bosta-de-rolinha, empoeirada, cheio de achaques e trejeitos, entrou de abelhudo na conversa, dizendo que jumento não fala, e que só sabe comer papelão e cagar na rua. Foi um cai-aqui-levanta-ali, Fogoió deu um bofetão tão forte no sujeito, que ele deve estar catando cavaco até hoje. O prefeito mandou chamar a polícia e botou os dois briguentos no xilindró.

Sem Chance, foi o apelido que ele ganhou no batismo de preso novato. O piquira comedor de papelão parou de relinchar no dia em que o seu dono foi preso. A corrutela inteira começara a perceber a morte súbita do relógio anunciado em relincho. Foi um fuzuê. O sujeito ficou dois dias vendo o sol nasceu quadrado, em cana. O jumento amanheceu deitado em frente da cadeia. A população também estava lá com pena de Fogoió e do bichinho enfermo. Ele foi solto.O jumento levantou, juntos foram-se embora.

No outro dia de manhãzinha, Fogoió levanta e sai a procura de relógio do Sertão por todo o canto e lugar. Anoiteceu e nada de seu melhor companheiro. Amanheceu, entardeceu, anoiteceu e também nada. Relógio sumiu!!! Toda população da redondeza só falava nesse tal relógio.

O orelha de abanar fogo do Fogoió teve a idéia de se candidatar em nome de relógio do sertão. Entrou em campanha, ganhou credibilidade, chorava em palanques quando pronunciava o nome de relógio e o povo se emocionava a ponto de derramar lágrimas. Ele tinha certeza absoluta que iria vencer as eleições. Na contagem dos votos, dava empate técnico. Fogoió já começava a escutar o chocalho sem ver a égua. Mas estava ali, firme pensando no dinheirão que iria sentar em cima.

O seu plano de governo era trazer todos os amigos de fora para assumir  o seu secretariado, e ninguém da região perto dele para dar palpites. Contaram voto por voto. Resultado: Fogoió perde as eleições por um voto de diferença, sem direito a recontagem  da votação. Sabe quem votou contra ele? O bate-pau do prefeito que ele mandou catar cavaco em um súbito bofetão.

No dia  2 de janeiro, relógio aparece relinchando na porta da prefeitura. Foi um alvoroço dos diabos. O prefeito eleito ficou feito o cão por dentro do mato ao saber da armação do Fogoió. O pavio do homem era curto. Ele andou comentando que esse sujeito do jumento merece uma "pisa pra água de sal". Fogoió jurava por todos os santos da corte do céu que não sabia do paradeiro do Relógio. O jumento teria desaparecido pelas bibocas, grotas, lugares inacessíveis.

 O político ficou bicanca com o acontecido, chegou a ponto de comprar no Piauí dois jumentos e uma jumentinha. Na certa as horas seriam marcadas direitinho pelos seus três "reloginhos" de quatro pernas.

Num belo sábado de feira, relógio surpreende o povo,  cruzando com a jumentinha do tal prefeito. Foi um alarde total. O encrenqueiro do Fogoió entrou na justíça lá em Goiás Velha, pedindo posse do embrião que o seu jumento gerasse. Naquela época tudo era administrado por Goiânia.

A confusão estava feita. Não tardou muito a mulinha aparece boiando no capão grande. A história vira ao avesso. O pirrônico Fogoió botou a sua galera para descobrir quem assassinou a bichinha que estava prenha de relógio e teria o seu novo herdeiro, o Reloginho. A guerra estava travada e sem tréguas. Foi um descanchelo para todos na região. Dois dias depois, aparece boiando de barriga para cima, todo inchado, na Lagoa da Ema, o Relógio do Sertão. Foi um destrampelo total na cabeça de Fogoió e de seus amigos. Era o grupo do inferneiro xingando de um lado, e do outro lado os destrangolados puxa-sacos do prefeito atirando pedras sem rumo nem direção. Para total desconforto de Cirilo, deram sumiço nos dois jumentinhos do dia para a noite.

A pergunta na corrutela era uma só: Quem cometeu a primeira  jumentada? Todos queriam saber a verdade dos fatos. A polícia militar foi acionada e a cidade parou de vez. Fogoió não pensou duas vezes. Saiu desembestado pelas cidades de Bom Jardim, Anicuns, Israelândia e onde tinha um buraco ele enfiava a cabeça. Correu na região a notícia que o desmanzelado do Fogoió teria culpa no cartório, pois ele saiu de fininho do meio da confusão. O prefeito, mais que depressa divulgou para todos que quem foge da raia é porque fez algo de errado.  

Aproximaram-se os festejos de São Luiz e Fogoió chega de manhãzinha, instala na pracinha principal um relojão do tamanho de uma rodeira de carro-de-boi e conclama toda a corrutela para ir à praça visitar  o relógio, que na certa, ele teria ressuscitado. Deu gente pra dedéu. Quase todo o oeste desceu para São Luis de Montes Belos para conhecer um relógio de verdade. Ele foi aclamado pelos visitantes.

Cirilo, o prefeito, viu que estava perdendo politicamente para o intruso e decidiu convidá-lo para o seu governo, como secretário da Administração. Seria na época uma espécie de gerente da corrutela. Fogoió aceitou o convite na hora.

No dia da posse do ex-esmoléu, chega de supetão uma comitiva vinda da cidade de Goiás Velho com 23 soldados armados até os dentes. Eles arrancam, sem pedir licença, o maior relógio do oeste goiano, prendendo de imediato Fogoió. É que o "cara-de-laranja- chupada" teve a coragem de roubar o relógio que veio de Portugal, trazido pelos Missonários da Cruz Vermelha e instalado na praça do coreto da currutela.

O forasteiro está sendo julgado na cidade de Goiás, pela Corte da Santa Inquisição da Igreja Católica.

Até o terceiro capítulo!

*Nilo Alves é cantor, compositor, escritor e jornalista.



Foi(ram) postado(s) 7 comentário(s) sobre esse artigo/opinião.

Comentário nº 1, enviada em 21:34:28, 20-05-2009

Enviado por: ELIAS DE JESUS MARIA SALVADOR DO BRASIL ARTIAGA
CAD~E O FINAL DA HISTÓRIA DO FOGOIÓ? O ESCRITOR NILO ALVES ESTÁ DE FÉRIAS LONGAS? ALÕ PRODUÇÃO LIGUE PRO HOMI E DIZ PRA ELE TERMINAR ESSA HISTÓRIA DO FOGOIÓ LOGO QUE ESTOU AQUI NO SURINAME AGUARDANDO AS ENROLADOS DO FOGOIÓ MALA. E VIVA A ANARQUIA!!!!!!!
Elias Salvador
Suriname



Comentário nº 2, enviada em 22:47:13, 10-05-2009

Enviado por: Nero Rick - Lisboa
OLá, olá Virtnet´s estamos daqui de Lisboa acessando as notícias deste grande sítio. Que bom que vcs daí tem bom gosto em botar histórias enfgraçadas enquantos os outros sites são muito pesados com notícias de violência e política. Chega de notícias ruins. parab´´ens a produção do Virtnetes!!!!!!!!!!
NERO RICK- PORTUGAL -LISBOA



Comentário nº 3, enviada em 20:37:17, 02-05-2009

Enviado por: João Pedrozo - São Paulo -SP
Olá galera do virtnet que idéia boa em divulgar os nossos escritores e artistas. Faça sempre isso.



Comentário nº 4, enviada em 20:34:58, 02-05-2009

Enviado por: Zenaide Araujo - Belgica
Olá amigão Nilo Alves, estou aqui na bégica num frio de arancar pica-pau do toco 4º abixo de zero, dá pra aguentar? TÔ MORENDO DE RIR DESSE TAL DE FOGOIÓ. VIXE! O CABRA É ENROLADA NÉ? E VIVA O FOGOIÓ DE IPORÁ!!!!
Zenaide - ´Belgica



Comentário nº 5, enviada em 01:08:16, 20-04-2009

Enviado por: Astrogildo Maranhão do Brasil
É isso aí galer - vamo butar fogo no mundo que precisamos de escritores e artistas sendo divulgados através deste Site bacana que é o Virtnet. Parabéns para voces daí de Iporá. Eu mora aqui do outro lado do mundo na Alemanha a 10 anos mas acompanha os acontecimentos artísticos é culturais por aí no braasil. Esse Fogoió é muito engraçado - essa estória teria que ser traduzida para o inglês porqu por aqui os alemães também dominam muito bem o inglês. Um abraço brasileiro.
Astrogildo Maranhão do Brasil - Alemanha



Comentário nº 6, enviada em 01:00:13, 20-04-2009

Enviado por: C´sar Alencar -Brasília -DF
Agora sim, estão aparecndo nas pa´ginas da Virtnet o presidente da UBE, Edval Lourenço, Nilo Alves que também é músico. Isso é bom, encha essa páguina de gente nossa porque eu também sou das terras de por aí. Morei muitos anos em Goiânia e curto Iporá.
Cesar Alencar- Brasília-DF



Comentário nº 7, enviada em 20:05:34, 16-04-2009

Enviado por: Zeca Balesta - Palmas-Tocantins
Onde o Fogoió vai eu vou atrÁS. Essa história é muito boa. Por que o Nilo Alves não faz um filme desse Fogoió? seria muito engraçado. Beijos!
Zeca Balestra é economista e cientista político.
Palmas-TO



:: COMENTAR ESSE ARTIGO


:: LEIA TAMBÉM

16.08.2010
Paiva Neto: Cuidado, estamos respirando a morte!


01.08.2010
A apreensão de veículo pela receita Federal e o direito de defesa (Diogo Fazolo)


06.07.2010
José Humberto dos Anjos: QUEM TEM O PODER É VOCÊ!


20.06.2010
Vilton Pereira: E os ciganos continuam com suas serestas!


29.04.2010
Artigo científico comprova a eficácia da Homeopatia no combate à dengue


26.04.2010
Arte é arte - Rebolation – Brasil do brasileiro é assim!


25.04.2010
Marcos Dantas: Prefeitos e a arte de governar fora dos municípios


06.04.2010
Ney Moura Teles: Estupro de vulnerável


05.03.2010
Apostador do Bolão da Mega Sena não registrado fala de sua frustração


16.02.2010
Antonio Goeldi: Noildo Miguel é um nome que não pode ser esquecido


05.02.2010
Cora Coralina de Goiás e do mundo


03.02.2010
Farra-do-boi e Carnavorismo


08.01.2010
Entrevista com Rubens Otoni, deputado federal (PT-GO)


23.12.2009
Entre porco, urubu e gavião: Ano novo, preconceitos velhos – Novela Richarlyson


09.12.2009
Alamar Régis: Vítimas dos longos financiamentos de automóveis


30.11.2009
Raquel Oliveira: A história do cerrado


28.11.2009
Os mitos do fim do mundo


17.11.2009
Alamar Régis: O bem perseguido e o mal protegido


22.10.2009
Porque a mula é infértil?


16.09.2009
Edival Lourenço: Como eram ditosos aqueles dias!


31.08.2009
Fraudes, assassinatos e processos judiciais na briga por heranças


12.06.2009
UM E.T CHAMADO ERRO


26.05.2009
Enteado já pode adotar o sobrenome do padrasto ou da madrasta


25.05.2009
Liderança militar aos olhos de Deus


18.04.2009
Edival Lourenço: De aviões, crianças e desatinos


17.04.2009
Fogoió nas sertanias do oeste goiano


12.04.2009
Saúde: Uma em cada quatro adolescentes sexualmente ativa no Brasil tem HPV


09.04.2009
Fogoió, o caçador de onça


08.04.2009
Pedro Claudio: O significado da Semana Santa para os católicos


26.03.2009
Noildo Miguel e seu fusquinha sem estepe


22.03.2009
Nilo Alves: Uma nova mídia não pode acabar com a outra. Ao contrário, deve incorporar, transformar.


20.03.2009
Mais politica e menos politicagem


18.03.2009
O que você sabe sobre os projetos da pessoa em quem você votou?


00.00.0000
Você quer ser feliz ou ter razão?


00.00.0000
João Carlos Barreto: “Patriotas” esperneiam pelos EUA


[Topo] [Voltar]

® Todos os direitos reservados a Virtnet - Desenvolvido por RRC Studio.