:: OPINIÃO/ARTIGOS

-> 18.04.2009
Edival Lourenço: De aviões, crianças e desatinos
*Edival Lourenço
Sabe-se lá que tipo de bactéria repentinamente desenvolveu-lhe nas entranhas. Sabe-se lá que tipo de mensagem um anjo torto soprou em seus ouvidos desta vez. A verdade é que um cidadão pacato, ao menos publicamente, sem mais nem menos, cisma de estuprar uma garota. Depois espanca a esposa com um extintor de incêndio, atirando-a do carro em movimento numa das pistas mais movimentadas que cortam Goiás. Foge de carro com a própria filha numa escapada maluca, chega a Luziânia, no entorno de Brasília. Rouba uma aeronave num aeroclube e, supostamente, sem nunca ter mandado um avião, parte rumo a Goiânia, num voo desgovernado. Leva pânico aos usuários do aeroporto Santa Genoveva, onde quase choca com um Airbus da TAM e ameaça se atirar contra a torre de controle. Sobrevoa os bairros mais populosos da Capital e Aparecida, em rasantes de tirar o fôlego. Dribla as autoridades aéreas. Aéreas mas ligadas no lance. Finalmente, autorizado apenas pelo desatino, o bin Laden das próprias doideiras aremessa o avião contra o Shopping Flamboyant. Por sorte, uma árvore o atrapalha e se espatifa no estacionamento, a poucos metros do hall de entrada. Morre com a filhinha de cinco anos, destroça 23 carros e apavora milhares pessoas. Um roteiro de história xiita transcorrida em pleno cerrado, escrito para Hollywood filmar. Tal desatino me remete a um outro ocorrido há 26 anos em Iporá city, situada no oeste goiano, a 217 km da Capital. Este impetrado não pela fúria, mas sim pela incúria mais desabrida. Era outubro de 1983. Mais precisamente, 12, Dia da Criança. A Praça do Trabalhador, no centro, lotada de crianças e seus acompanhantes, para os festejos do dia. Músicas, balões, palhaços e toda animação para entreter os pequeninos. De repente, como parte das comemorações, um teco-teco se irrompe nos ares, em evoluções sobre a praça. Atira balinhas, pirulitos, confetes e outras bruzundangas. Era um personagem conhecido e reconhecido pelo traquejo com a máquina e o arrojo das manobras com seu estrupício voador, já um tanto estropiado e refeito com rebites e durepóxi, além de alguns cabos substituídos por arame em gambiarras caseiras. Mané do Avião, – esse era o cara – vendo a criançada delirar com suas façanhas, cada vez fazia voos mais rasantes e acrobáticos, enquanto um filho seu e um amiguinho atiravam as coisas por uma janela sem vidro. De repente, um estrondo. O top gun das águas claras perde o controle da geringonça e se estabaca por trás, contra a platibanda da casa de Olindo Leão, gerente do BEG, situada quase na esquina da praça. A platibanda precipita no pátio e o teco-teco estatela-se um pouco mais à frente, na rua, qual um gafanhoto avariado. Os estripulantes (praticantes de estrepolias) tiveram escoriações e foram logo socorridos. Já avião, não. Não houve arame, rebites ou durepóxi que lhe dessem volta. Além do pânico, o saldo triste desse desatino foi que, horas depois, Olindo Leão (primo do poeta Tagore Biran) foi encontrado morto no pátio, sob os escombros da platibanda, ainda de roupa de dormir e escova de dente na mão. Suas crianças estavam com a mãe na praça. A comoção foi geral e sem precedentes.
*Edival Lourenço é um dos mais premiados escritores brasileiros. Nasceu em Iporá (Go) e tem várias obras publicadas, dentre as quais: Estacio do Cio (1984), Centopéia de Neon (Prêmio Nacional de Romance do Paraná -1994) e Mundocaia (2004). É Presidente da União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás.
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