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-> 03.02.2010
Farra-do-boi e Carnavorismo

* Sônia T. Felipe

Desde há muitos anos, mais de uma década, a luta pela abolição da farra-do-boi, uma farra praticada por um grupo bastante reduzido de indivíduos, mas com a cumplicidade silenciosa da maioria da população e das forças militares que a deveriam coibir, tem sido uma forma de expressão da luta pela abolição de todas as práticas, individuais ou institucionalizadas, de maus-tratos aos animais.

A quaresma católica torna-se, todos os anos, o purgatório dos defensores dos animais e o inferno desses. Mas, essas poucas semanas que sucedem a orgia carnavalesca e antecedem a “ressurreição da carne” são apenas uma pequena demonstração da batalha sem fim infligida à vida dos animais não-humanos pelos humanos, acostumados que são a fazerem o que bem entendem com a vida dos outros, e o fazerem de modo absolutamente escravizador, cínico e cruel com a vida daqueles que não podem se defender.

A farra-do-boi tem sido justificada com o argumento de que representa a preservação das tradições. Justamente por usar o termo tradição, o defensor dessa malevolência abre os flancos para que um juízo moral possa ser feito a respeito de sua prática. Nem tudo o que se apregoa como tradição tem valor moral. Nem toda tradição é digna de ser passada às gerações futuras ou mantida pela geração atual como uma forma de mostrar nossa evolução moral, econômica, estética, política ou cultural.

Do mesmo modo que rodeios, farras-do-boi perderam o sentido cultural original. No passado, era necessário adestrar homens jovens para a tarefa de agarrar o gado à unha para permitir a aplicação de medicamentos ou capturá-lo para o abate. Apenas os jovens residentes na região eram levados a aprenderem as técnicas apropriadas para a apanha das reses.

A farra-do-boi perdeu completamente seu contexto cultural, ao desvincular-se de sua finalidade econômica original. Ao ser praticada por indivíduos cuja fonte de renda, pescadores e comerciantes, por exemplo, sequer é ligada à criação do gado, ela demonstra apenas uma coisa: a fissura na qual esses homens se encontram, buscando gozar às custas da dor, pânico, exaustão e morte do animal. Não há qualquer outro aprendizado que um indivíduo possa realizar participando, acolhendo ou assistindo a tal farra.

A condição dos animais usados para que grupos restritos de humanos tenham tal gozo, ferindo não apenas a Constituição Brasileira, mas também todos os códigos de ética em defesa da vida e da liberdade dos animais, é a de meros objetos da propriedade humana.

A farra-do-boi, mais do que preservar a “cultura açoriana”, desculpa esfarrapada adotada inclusive por cientistas da área da história e da antropologia, é o retrato genuíno da moralidade ocidental em sua pior performance desde os tempos das arenas romanas.  Ao tolerar o uso e abuso de animais para jogos que fascinam apenas um dos lados participantes, a cultura que realmente está sendo preservada e a ideia subliminar que de fato está sendo cultuada é a de que os animais nascem para nos servir, ou, em outras palavras, que, sendo objetos da propriedade humana, pode-se fazer o que bem entender com eles.

Enquanto a ideia de que os animais são criados para servirem exclusivamente aos interesses humanos não for desmascarada, continuaremos a presenciar não apenas farras com os bois na quaresma catarinense, mas também com galos nas rinhas cariocas, com os bezerros e touros nos rodeios paulistas, com quaisquer animais na arena do mercado de produção de carnes e derivados de origem animal.

Enquanto isso, a vida sobre nosso planeta está por um fio. A pergunta que não consigo responder é:

Se a cultura e a tradição têm o propósito de passar para os que vêm depois de nós aquilo que de mais precioso temos para que a vida deles possa ser melhor vivida do que a nossa o tem sido, em que ponto desse raciocínio as pessoas conseguem concluir que maltratar, ferir, explorar e matar animais não-humanos seja uma dessas maravilhosas coisas que temos o dever de passar para as gerações seguintes como prova definitiva de que levamos nossa inteligência e sensibilidade ao mais alto grau possível do aprimoramento moral, a ponto de que isso que conquistamos não deva ser abolido? Em que, farrear com bois ou seja lá qual animal for, assegura à humanidade um estatuto moral refinado, digno de ser passado como “tradição” às gerações seguintes?

Ser ético não é algo que seja formatado em nós geneticamente. É uma escolha moral própria. Mas, fazer a escolha de ser ético numa cultura que não aprimora valores morais, apenas brutaliza a consciência, tem sido, para todas as crianças e jovens nascidos na vizinhança das farras gozadas pelos humanos às custas dos animais, uma escolha confusa.  A luta pelo fim do uso dos animais como propriedade humana deve ocupar o lugar que hoje, tanto a academia quanto a religião e a chamada “cultura”, destinam à justificação de práticas como a farra-do-boi em cinco ou seis municípios catarinenses.

Santa Catarina, infelizmente, é o Estado que mais mata animais no planeta, contando-se o número deles abatidos pela indústria em quilômetros quadrados. Desse modo, também é a região do planeta que mais contribui (contando-se por quilômetros quadrados) para o aquecimento global, em função da piramidal quantidade de excrementos acumulada sobre o solo, infiltrando-se no lençol freático e poluindo o ar. Não por acaso, o maior buraco da camada de ozônio está sobre a região da América do Sul que mais cria e abate animais.

A cultura do carnivorismo e laticinismo responde por 18% do aquecimento global, deixando a queima de combustíveis bem atrás, com 13 % da responsabilidade. Nossa “tradição” ordena que continuemos a comer carne como se esse fosse o alimento ideal para nossa saúde, e a beber leite e derivados como se a vaca nos houvesse sido dada para compensar o desmame natural e imprescindível da nossa espécie.

A farra-do-boi não pode ser defendida com a desculpa de que é uma tradição.  Essa é uma daquelas tradições que envergonham a humanidade. Assim o foi a tradição mantida por mais de 500 anos de sequestro dos africanos e sua venda em mercados euro-americanos como objetos de propriedade dos traficantes, e as farras nas arenas romanas que também foram uma tradição de mais de 500 anos, e outras tantas farras levadas a cabo às custas da dor, sofrimento, tormento e biocídio de seres da nossa e de outras espécies.

Do mesmo modo, a “farra” dos comedores humanos adictos aos alimentos de origem animal terá que ser abolida, esse mau hábito de “comer por farra”, sob pena de que, se não fizermos nada para eliminar de nossa “cultura” farras gozadas unilateralmente, o que estamos formatando em nós para a humanidade futura é uma moralidade mal-acostumada, indigna de ser referida em público como padrão a ser seguido por todos os humanos.

Nossa vida sobre a superfície desse planeta está por um fio. A vida dos animais que costumamos explorar e eliminar tem estado por esse fio há séculos. Tirar a vida dos outros para obter ninharias, tais quais o excitamento produzido pela agonia na qual o animal em pânico sofre durante o folguedo, ou as sensações gustativas e palativas produzidas por “iguarias” vindas da câmara de sangria dos abatedouros e criadouros, e defender que tais sensações sejam algo digno de preservação moral por serem “tradicionais” são equívocos, pois estão fundados na ideia de que a vida (dos outros) seja algo trivial.

Se houvesse um juízo final, com certeza, os que hoje vivem sob a bandeira das tradições gastronômicas e farristas seriam julgados pela pirâmide dos animais que transformaram em carcaças, forçados que foram a perder suas vidas para servirem a, esses sim, interesses absolutamente triviais.

* Doutora em Teoria Política e Filosofia Moral, pela Universidade deKonstanz, Alemanha (1991). Co-fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993). Ex-voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1997-2000). Autora dos livros, "Ética e Experimentação Animal - fundamentos abolicionistas" (Edufsc, 2006); "Por uma questão de princípios" (Boiteux, 2003). Co-autora de "A violência das mortes por decreto" (Edufsc, 1998), "O corpo violentado" (Edufsc, 1998),"Justiça como Eqüidade" (Insular, 1998, esgotado). Colaboradora nas coletâneas, "Instrumento Animal" (Canal 6, 2007), "Éticas e políticas ambientais" (Lisboa, 2004), "O utilitarismo em foco" (Edufsc, 2007), "Filosofia e Direitos Humanos" (Editora UFC, 2006), "Tendências da ética contemporânea" (Vozes, 2000). Autora de dezenas de artigos editados nos sítios: http://www.svb.org.br/; http://www.pensataanimal.net/; e na Revista Ethic@ (http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/). Coordena o Laboratório de Ética Prática, do Departamento de Filosofia da UFSC, é professora e pesquisadora do Programa de graduação Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da UFSC. Membro Permanente do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, Lisboa. Coordena o Projeto de pesquisa: Feminismo ecoanimalista: contribuições para a superação da violência e discriminação especistas, revisando a literatura sobre defesa de animais e ecossistemas produzida por mulheres (Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, UFSC, 2009-2011).




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